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O BRASIL DE TELÊ – O MAIOR TIME SEM TÍTULOS?

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É difícil cravar se o Brasil de Telê é o maior time que não conquistou títulos, mas com certeza podemos falar que é um dos que mais encantou os fãs do futebol. Trataremos das duas passagens do técnico pelo comando da seleção brasileira, mas daremos mais destaque ao time que jogou a Copa do Mundo de 1982 (por razões óbvias).

Telê Santana deixou o Palmeiras em 1980 e foi treinar a seleção brasileira de futebol. Seu bom papel frente aos alviverdes – duas semifinais, no Brasileirão e no Paulistão – aliados aos títulos conquistados anteriormente (pelo Atlético-MG e Fluminense), mostravam capacidade de fazer a seleção jogar como um time. Material humano havia.

Em 12 de fevereiro de 1980, o então presidente da CBF, Giulite Coutinho, anunciou Telê como treinador da seleção brasileira e o mineiro de Itabirito tinha a missão de montar o time que disputaria o título mundial de 82.  Começou com dois jogos extra-oficiais (Seleção de Brasileira de Novos e Seleção Mineira) e estreou oficialmente contra o México. Nesses jogos já apareciam aqueles que seriam a base da sua seleção, como Luizinho, Júnior, Cerezo, Falcão, Sócrates, Zico e Éder. Mas havia muita opção e Telê  experimentou muito. O primeiro grande teste viria logo no segundo ano como comandante da seleção.

A montagem da seleção de 82

Na virada de 1980 para 1981, foi realizado o Mundialito de Montevideo, em comemoração aos 50 anos da primeira Copa do Mundo. A competição foi decisiva para consolidação da base da seleção de Telê. O time empatou com a Argentina, goleou a Alemanha e perdeu a decisão para o Uruguai, apresentando um bom futebol.

Mas isso não impediu que a imprensa duvidasse da equipe. Nas eliminatórias, Venezuela e Bolívia não ofereceram risco e a classificação veio com quatro vitórias. Entretanto, o Brasil enfrentava muitas dificuldades para atuar fora de casa.

A montagem pra valer da seleção começou a acontecer na excursão feita à Europa, em maio de 1981. Bons jogos contra Alemanha Ocidental, Inglaterra e França deram muita esperança ao torcedor. O elenco sofria muitas mudanças, mas aos poucos os nomes foram se definindo.

Waldir Perez ganhou a vaga no gol, mesmo tendo Raul e João Leite na briga. Os dois, aliás, nem sequer foram para a Copa. Leandro só assumiu a lateral direita no final de 81, superando Edevaldo que foi titular em boa parte da trajetória. A zaga ficou consolidada com Luizinho e Oscar, mesmo com Edinho aparecendo bastante nos testes. A esquerda sempre foi de Júnior. O meio sempre contou com Cerezo, Sócrates e Zico. Durante praticamente todo o ano de 1981, apenas Paulo Isidoro atuou com eles. Em 82, antes da Copa, ele dividiu lugar nos testes com Renato “Pé Murcho”, Batista e Adílio. Mas Falcão chegou da Roma, jogou dois jogos antes da Copa e pegou uma das vagas, mesmo sem se garantir como titular. No ataque, Éder esteve presente sempre e acabou se consolidando, superando Mario Sérgio (muito em virtude do temperamento) e Zé Sérgio (que poderia ser o ponta que todos queriam, como falarei depois). A outra vaga foi disputada por muita gente, mas parecia que ia ficar com Careca. Entretanto, ele se machucou durante a preparação da seleção na Toca da Raposa, antes da viagem para a Espanha. Como Telê não queria o Reinaldo (que estava jogando muito no Galo, mas pecava pelo físico e sua postura extra-campo), a vaga caiu no colo de Serginho Chulapa. O atacante do São Paulo esteve sempre frequentando as convocações, mas era mais limitado até do que outros postulantes, como Roberto Dinamite, que mesmo não estando em sua melhor fase, foi convocado para o lugar do jovem Careca.

Placar especial de fim de ano 1981
Placar especial de fim de ano 1981 exaltava os quatro ídolos. Reinaldo ficou de fora. FOTO: Placar

Durante esse período de montagem de elenco, a seleção foi conquistando o torcedor. Mas a imprensa queria um ponta. Isso mesmo. A grande reclamação dos jornalistas (humoristas, economistas, médicos….) ao trabalho de Telê era a falta de um ponta no time titular. Um ou outro reclamava da unanimidade de Telê Santana, apontando-a como risco de soberba e possível causadora de decisões erradas.

Curiosamente uma das vozes dissonantes era a de João Saldanha. Um retrato desse período de montagem da histórica seleção que iria ao mundial de 1982 é o livro “O Trauma da Bola: a Copa de 1982”. Lançado em 2002, ele reune as crônicas do jornalista e ex-técnico da seleção publicadas no Jornal do Brasil, entre março e agosto de 1982. Saldanha deixava claro que sua maior preocupação era a indefinição dos titulares e a preparação física ruim, que colocava os brasileiros em desvantagem frente aos europeus. Ele também criticava o “oba oba” da mídia com a seleção, que se estabeleceu com o início da Copa. Aliás, veremos agora que por mais errado que fosse esse comportamento de superioridade, era justificável.

A lendária participação da Copa de 82

Waldir Peres; Leandro, Luizinho, Oscar, Júnior; Falcão, Zico e Sócrates; Dirceu, Éder e Serginho. Esse foi o onze que entrou em campo em Sevilla para estrear na Copa do Mundo da Espanha. O Brasil venceu de virada a União Soviética, por 2×1, no jogo mais difícil da chave. Depois disso, Dirceu saiu para a entrada de Cerezo, completando o time que entraria para a história do futebol mundial. No restante da primeira fase, só espetáculo: 4×1 sobre a Escócia e 4×0 sobre a Nova Zelândia. A classificação em primeiro no seu grupo colocou o Brasil frente a frente com Argentina e Itália. Vale ressaltar que, se tivesse ficado em segundo, o Brasil teria enfrentado Polônia e Bélgica.

Contra a Argentina, um espetáculo com direito a 3×1, em Barcelona. Bastava um empate contra a Itália, que havia empatado os três jogos da primeira fase (Polônia, Peru e Camarões) e vencido a Argentina por 2×1.

A Azzurra vinha de polêmicas extra-campo, briga com a imprensa e vários problemas no seu campeonato. Mas era fortíssima e venceu o Brasil por 3×2, no jogo mais dramático do futebol nacional, depois do Maracanazzo.

Já contamos essa história no Lembra Daquele Jogo sobre a Tragédia do Sarriá, que você confere aqui.

O Brasil voltou sem título, mas ficou para a história. A seleção de Telê Santana se tornou uma representação do futebol arte mundo afora, mesmo com o fracasso. Um feito gigantesco. E uma base forte para seguir em frente. Mas Telê saiu, devido as diversas críticas e a um contrato muito lucrativo com o Al-Ahli da Arábia Saudita.

O Brasil não jogou mais em 82, sendo comandado por Carlos Alberto Parreira em 83, que fracassou na Copa América. Em 84, foram apenas três jogos sob comando de Eduardo Antunes Coimbra (que também era o irmão mais velho de Zico). Em 85, foi a vez de Evaristo de Macedo, por apenas seis jogos.

A volta de Telê

O Brasil não entrou nos eixos durante os dois anos que passou sem Telê. Então ele voltou. A CBF tentou buscá-lo ainda em 84, mas o contrato com os árabes impediu sua volta, que aconteceria em 23 de maio de 85. Curiosamente, ele ainda tinha um vínculo com o Al-Ahli, mas conseguiu ser liberado para treinar o time nacional apenas nas Eliminatórias da Copa. Superando Paraguai e Bolívia, classificou a seleção para o Mundial e voltou ao seu clube. No final de 85, Telê rescindiu em definitivo seu contrato com os árabes e foi anunciado como técnico da seleção para a Copa do Mundo de 86. Foi quando começou um dos capítulos mais sui generis da história da amarelinha.

A CBF pegou os jogadores quatro meses antes da Copa e fez a maior concentração para uma Copa do Mundo já feita. Telê Santana reuniu a seleção para treinar por um período longo, desfalcando os clubes e criando a maior cobertura midiática pré-copa até então. Essa foi uma das várias exigências feitas pelo técnico para voltar ao comando da amarelinha. A CBF estava em meio a uma disputa eleitoral e não fez nenhuma objeção, obrigando os clubes a ceder os atletas a contra gosto. Por causa disso, o calendário mudou, os estaduais passaram para o primeiro semestre e o Brasileirão para o segundo. A confederação até pagou os salários dos atletas cedidos. Tudo pelo tetra.

Os quatro meses na Toca da Raposa

Foram quatro meses treinando junto entre fevereiro e maio de 1986, numa pré-temporada que teve status de “Big Brother do Tetra”. 29 atletas foram levados, entre eles, Sócrates. O Doutor chegou ao Flamengo, nem sequer jogou pelo time e já foi para a seleção. Em 24 de fevereiro, o grupo partiu para BH, onde se concentrou na Toca da Raposa, exceto por Dirceu, Cerezo, Edinho e Júnior, únicos que jogavam na Itália (outros tempos!). Todo mundo chegou, mas Renato Gaúcho e Leandro apareceram bêbados e seis horas depois do prazo – 4 da madrugada. Telê não cortou os dois, à pedido dos jogadores, mas ficou atravessado com Renato – que não pediu desculpas, como Leandro fez.

A cobertura extensiva e diária da imprensa tinha como principal questão a coxa de Zico, que corria risco de deixá-lo de fora da Copa. O Brasil ainda foi mau nos dois primeiros amistosos, perdendo dois jogos. Aí tudo ficou mais tenso. O trio de dirigentes Nabi Abi Chedid, José Maria Marin e Márcio Braga (acode!) entraram em conflito com Telê, que não topou mudar o grupo, por considerar desrespeitoso para com os jogadores. A panela de pressão estava prestes a estourar, mas ainda tinha muita coisa para acontecer. Até o fim do período, em resumo, ainda teve:

  • Éder Aleixo cortado por indisciplina;
  • Sidnei sofrendo uma distensão na coxa;
  • Edvaldo sendo convocado, para suprir a saída de Éder;
  • Declarações polêmicas de Edinho e Dirceu, ainda na Europa, causando desconforto no time;
  • Testes físicos apontando que o time não estava em grande forma física e que Zico, Leandro, Oscar e Sócrates estavam muito abaixo da média;
  • Cerezo chegando da Itália com lesão na virilha.

Tanta coisa acontecendo, tanta gente enervada… e parecia não ser o suficiente para deter a seleção. Em meio a vários testes, o time melhorou um pouco nos demais amistosos, culminando com o espetáculo contra a Iuguslávia, no Arruda, justo na volta categórica de Zico.

Chegou maio e o dia de definir o elenco da Copa. Os cortes de Gilmar, Marinho, Dida e Mauro Galvão, não surpreenderam. Nem o de Sidnei, devido a lesão. Mas o de Renato não se justificava – a não ser pelo episódio com Leandro, no início do período na Toca. O sétimo jogador que seria cortado ficou para depois, devido as condições físicas dos atletas. Mas o grande acontecimento seria a desistência de Leandro. Em 8 de maio, dia do embarque, Leandro não apareceu e, sem avisar ninguém, desistiu da Copa. Problemas físicos, discordância com Telê sobre a posição em que jogaria e, principalmente, solidariedade ao amigo Renato Gaúcho motivaram essa decisão.

Assim, Josimar veio para o lugar de Leandro. Mas como se não bastasse tanta confusão, Telê Santana ainda cortou mais dois por questões físicas: Cerezo e Dirceu (que não concordaram com a decisão). Cerezo inclusive jogou dias depois pela Roma. O jovem Valdo, do Grêmio – que não participou de todo esse confinamento -, chegou de última hora e foi para Copa. E o Mauro Galvão, que já havia sido cortado, voltou ao time, devido a lesão do Mozer. Ufa! Chega. Vamos para Copa.

Mais uma decepção em Copa do Mundo

Depois de tanta coisa acontecendo, sobrou pouco para a seleção fazer na Copa do Mundo. A atuação no México foi muito abaixo do que poderia ser, principalmente pelo grupo rachado e pelos problemas técnicos. Fora de campo, com um elenco de fanfarrões e boêmios, não dava para imaginar que correria tudo bem. Foram realizadas baladas frequentadas por jogadores e jornalistas durante a competição.

“Era no México, um pais muito animado, cheio de festa. O Circo Voador – uma trupe de artistas cariocas que revolucionou as artes nas décadas de 80 e 90 e que hoje existe na Lapa (Rio de Janeiro) – foi inteiro em um avião da FAB. Foi uma galera. Pegaram um hotel inteiro – bem meia-boca, mas que virou uma versão do Circo Voador carioca em plena Guadalajara. Eram as baladas”. Marcelo Tas, em entrevista para o portal Terra.

Por falar em Marcelo Tas, vale a pena citar o personagem dele na Copa: Ernesto Varela.

Em Guadalajara, a grande atração da seleção brasileira foi Josimar. Chegou de última hora, jogou bem e fez dois golaços! O time não deu espetáculo, mas venceu Espanha e Argélia, ambas por 1×0, e Irlanda do Norte, por 3×0. Nas oitavas, a melhor atuação do time: 4×0 sobre a Polônia. Abaixo, o senhor golaço de Josimar contra a Irlanda do Norte.

 

Nas quartas, eliminação nos pênaltis para a França, depois de um empate em 1×1. Zico foi vilão, pois depois de toda novela de sua recuperação, perdeu o pênalti decisivo no fim do jogo. Uma campanha bem menos icônica, mas bem dolorida. O time de Telê saia mais uma vez sem conquista. Mas aquela Copa seria mesmo de Maradona.

Zico perde pênalti contra a França
Zico perde pênalti contra a França. FOTO:

Qual o legado de Telê Santana na seleção

O time e o futebol apresentando em 82. A primeira passagem de Telê foi histórica e jamais deixará o imaginário do torcedor. A segunda, com um Telê mais duro e um time muito menos vistoso, deixou mais confusão do que boas impressões.

Mas sem dúvida, a seleção brasileira de Telê Santana merecia um título. Pelo menos uma Copa América. Mas não deu. Ele ainda seria técnico multicampeão pelo São Paulo e a amarelinha ganharia novas estrelas e mais títulos. O que parece é que não era para esse encontros render taças. Sua função era dar um novo sopro de esperança a quem gostava daquilo que chamam de futebol arte.

Telê Santana com a seleção em 1981
Telê Santana com a seleção em 1981: FOTO: Allsport UK /Allsport
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