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Galvão: a voz do esporte na TV brasileira

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Uma das vozes mais conhecidas da TV brasileira e a cara da Rede Globo nas transmissões esportivas. Um dos maiores, se não o maior comunicador do Brasil. Na sua definição ao se referir ao que faz de melhor, “um vendedor de emoções”. Galvão Bueno chegou aos 70 anos e a quase quarenta na maior emissora brasileira. Além de ser reconhecido como o maior narrador da TV brasileira também se destaca em outras facetas, sendo apresentador e até empresário. Sem esquecer também de seu passado no rádio, é claro.

Há vinte anos, a matéria “A voz do futebol”, assinada pela dupla André Fontenelle e Marcelo Costa, na edição da Placar de agosto de 2000, trazia uma entrevista com Galvão no seu auge. O narrador fazia um balanço da carreira até ali, falando de planos para o futuro e de suas amizades no meio esportivo (como a que conservou com Ayrton Senna e a proximidade com o então técnico da Seleção Brasileira Vanderlei Luxemburgo). Além disso falava sobre sua relação com fãs e com o já conhecido “amor e ódio” que gera no seu público.

O melhor ou o pior?

Por falar em amor e ódio, a matéria já começa com uma enquete realizada pela revista, em que Galvão foi eleito o pior narrador do Brasil, por 47,6% dos entrevistados, e o segundo melhor, com 24,7%. Vale dizer que o melhor, Luciano do Valle, teve apenas 0,8% de votos a mais. Quer algo mais divisivo que isso? Seria uma boa refazer essa enquete hoje…

A trajetória até o topo revisitada

A veia competitiva e a maneira de se preparar para as transmissões já se manifestavam desde cedo. Segundo contou, chegar ao topo – ou seja, a Globo – já era objetivo de Galvão desde o início da sua trajetória. Como mostrou a matéria, ele não demora a conseguir – apenas sete anos. Mais especificamente, em 81 num despretensioso jogo do Flamengo contra o Jorge Wilstermann pela Libertadores. Ali já chama atenção a sua capacidade de passar emoção até a uma partida modorrenta. Característica com a qual nos acostumamos bem.

Seu estilo próximo ao do titular da época, Luciano do Valle o colocou como a principal alternativa a iminente saída de Luciano. Apenas com 32 anos ele passa a ser o número um – embora na copa de 86 perdeu o posto pra Osmar Santos, mas rapidamente a Globo viu que não era o melhor caminho.

Quase 20 anos depois da sua chegada, Galvão estava no topo na época da entrevista. Principalmente financeiramente. A reportagem especula um salário, na época, de 3 milhões anuais, embora ele nunca confirmasse. Era muito maior que o rendimento médio de um narrador de primeira linha – que segundo a matéria sondou, ficava em torno de 600 mil anuais – e mais até que a “chefona” global da época, Marluce Martins. Todo esse papo sobre salários, se olharmos para as políticas de remuneração de estrelas da Globo, mostra a importância que Galvão já tinha naquela época e porque, nos dias de hoje, ele continua intocável.

Muito disso se deve a sua capacidade de despertar emoção, as vezes até em doses exageradas. Ao longo de sua trajetória ele marcou diversos momentos do esporte brasileiro. Sim, do esporte. Isso porque, como mostra a matéria Galvão atingia (e atinge) destaque além das fronteiras do futebol. Sua capacidade de passar por diversos esportes, sempre mantendo um alto padrão de qualidade, fez dele um dos grandes responsáveis pela popularização da Fórmula 1 no Brasil, por exemplo. Também ajudou a moldar a imagem de muitos ídolos. Tem grande parte da construção heroica em torno de Senna apesar de que, como destacou na matéria, a genialidade de Ayrton tenha sido preponderante. Sua presença se fez também em momentos históricos do vôlei, basquete e outros, sem falar nas várias participações marcantes em Olimpíadas – a vitória do Phelps por uma unha em Pequim, com certeza estaria na matéria, se já tivesse acontecido.

Por fim, a matéria destaca outro ponto importante: sua relação as vezes passional com a seleção. A discussão sobre o seu ufanismo e a rivalidade que alimenta até hoje contra a Argentina, foi um ponto que não poderia faltar. Aliás, até hoje ouvimos sua famosa frase “ganhar é bom, mas ganhar da Argentina é muito melhor!”. Passados 20 anos, vemos que a consolidação da Seleção Brasileira como um dos maiores produtos esportivo do mundo, passou muito pelas mãos, ou melhor, pela voz de Galvão.

Amizades e a vida pessoal

A matéria destacou também a amizade de Galvão com personalidades dos esportes, mais especificamente com Senna e sua família e também com Luxemburgo – na época técnico da seleção. A matéria questionou o lado ético dessas relações pois, na sua posição de jornalista, elas poderiam influenciar nas suas críticas ou na maneira de tratar estes personagens nas transmissões. Galvão obviamente não achava e provavelmente não acha até hoje que isso seja um problema. E olha que o caso do Sávio mostrado na matéria (que  soa como absurdo hoje) exemplifica bem os frutos que os privilégios dessa amizade trazia.

A matéria também trazia diversos aspectos da vida pessoal do narrador como a paixão pelos carros, suas aparentes futilidades e seu lado familiar, desde os relacionamentos com os filhos até a então nova namorada, sua atual esposa, Derisée Soares. E claro, a amizade de longa data com Arnaldo Cezar Coelho foi destaque – talvez uma das mais famosas da TV brasileira. Detalhes dos bastidores das transmissões como as “brigas estratégicas” e as exigências e “chatices” de Galvão com a equipe… Excentricidades de uma estrela, como a matéria mostrou que Galvão era.

É interessante notar a abordagem feita sobre a relação de Galvão com o público e como ele lidava com a rejeição que provocava. Isso em paralelo a adoração que recebia por parte do público. Galvão apontou na matéria, como exemplo de rejeição, sua narração de Palmeiras e Corinthians pela Libertadores em 2000, além de citar as faixas do tipo “Galvão, vai pentear macaco”. Mal sabia ele que viria o “Cala boca Galvão” em plena Copa do Mundo da África.

Muito curioso reler essa matéria com o narrador que não revelava seu time de coração nem a porrete… Apesar de todos desconfiarem de que se tratava de um flamenguista.

Mais 20 anos..

Como sabemos hoje, quase nenhuma das apostas ou planos de Galvão se confirmaram… Popó nem passou perto da Fórmula 1, por exemplo (risos). Seus planos para o futuro como a aposentadoria, que tinha até data de encerramento, não se cumpriram até hoje. Mas como ele mesmo disse que faria, desacelerou bastante. Quase não narra o futebol de clubes, não é mais figura certa nas transmissões de Fórmula 1 e muitas vezes nem nos jogos da seleção (algo impensável anteriormente). Evidentemente, problemas de saúde colaboraram para essa decisão, mas a matéria já deixava claro que esse era um projeto de vida. Sua sucessão pode estar sendo planejada faz vinte anos, mas com certeza não será algo fácil de acontecer.

Galvão se atualizou em algumas coisa, mas como um todo, segue sendo um pouco fora do tempo em que vivemos. O que não deixa de ser um charme. Ele funciona quase que como um monumento ao esporte na TV brasileira. Criou padrões, serviu de modelo e segue sendo o mais lembrado dentre todos os narradores esportivos – que convenhamos, é um ecossistema cheio de exemplares ruins. Lembrado positiva ou negativamente, como já era em 2000.

Talvez Galvão Bueno seja o maior nome do esporte brasileiro que nunca atuou em nenhuma modalidade. Com certeza, alguém difícil de ser ignorado.

 


Ficou curioso e quer ler a matéria? Confira  na íntegra neste link ou nas imagens abaixo:

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