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O Uruguai, o gol de Clodoaldo e os não-gols de Pelé

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Brasil e Uruguai se enfrentaram em 17 de junho de 1970, valendo uma vaga na final da Copa do Mundo. Naturalmente, como toda vez que as duas equipes se enfrentam, alguém resgata o Maracanazzo. Imagine se isso não ia acontecer naquela véspera de jogo, que seria o primeiro encontro das duas seleções após a decisão da Copa de 50.

Assim sendo, vamos começar a falar daquele confronto por esse tema.

O Fantasma de 50

Particularmente, acho isso uma bobagem. Vende bastante jornal (expressão que fazia sentido naquela época), mas, dentro de campo, só afeta se os jogadores se deixarem levar pela “pilha”. Não me pareceu o caso.

Primeiramente, falemos do lado dos jornais. Eles exploraram bem o assunto, mesclando ufanismo e empolgação. “No Jalisco, a mesma batalha de há 20 anos”, dizia a Folha. “Brasil não teme fantasma de 50”, provocava O Globo.

Já entre os jogadores, Pelé, por exemplo, era apenas um garoto em 1950 e viu o pai Dondinho chorar com a derrota para o Uruguai. Paulo Cézar Caju, que faz aniversário no dia da inauguração do Maracanã, tinha apenas um ano quando aconteceu a fatídica final. De uma forma geral, acredito que alguma preocupação devia existir, mas a ponto de atrapalhar o time em campo, duvido.

Zagallo, que estava no Maracanã trabalhando pela Polícia do Exército, tinha muita relação com aquele jogo. Sendo assim, muito solicitado pela mídia nos dias anteriores à partida e se esquivando totalmente dela. Não deu nenhuma entrevista.

Agora, que o Uruguai se apegou a isso… Ah, com certeza. Eles não eram bobos de deixar passar. Nas coletivas pré-jogo, estavam presentes o auxiliar técnico Juan López, o “Juancito Maracanã” – que esteve na equipe campeã de 1950, e o técnico Juan Hohberg. Esse causou… “Itália e Alemanha que resolvem entre eles quem sobrará para enfrentar domingo o Uruguai, pois nós iremos à final”, disse o diretor técnico uruguaio, garantindo a capa dos periódicos brasileiros. Sem falar nos jornais uruguaios. Um deles até estampou a manchete “Uruguay 30 – 50 – 70″, em referência aos títulos de 30 e 50, já projetando o de 70.

Resumindo: criaram um baita “climão” de guerra para o jogo.

Holberg é destaque na capa do Globo.
Holberg é destaque na capa do Globo. FOTO: Acervo O Globo

Pré-jogo tenso

O Jalisco não costuma ser tão quente às 16h, como era nos jogos ao meio-dia. Mas naquele dia estava especialmente fervendo. Os dois times perfilaram em situação diferentes: o Brasil completo e o Uruguai com uma baixa pesada. Everaldo, que ficou de fora da partida contra o Peru, voltou ao time titular brasileiro e Pedro Rocha, craque celeste, ficou de fora da semifinal.

Brasileiros e uruguaios perfilados.
Brasileiros e uruguaios perfilados. FOTO: Getty Images

Se o Brasil formava – apenas pela segunda fez – sua formação clássica do Tri, o Uruguai vinha fiado à sua forte defesa, que havia tomado apenas um gol na competição. Entretanto, muito cansado, por ter jogado uma prorrogação contra os soviéticos, além de ter precisado se deslocar por 600 km para a partida. Aliás, como curiosidade, o Jalisco só foi confirmado como palco do jogo na véspera. Dois dias antes, ainda havia a possibilidade do jogo ser no Azteca (pasmem!). Os uruguaios reclamaram muito da decisão, pois foram obrigados a viajar.

Brasil favorito. Uruguai perigoso. Tensão… Finalmente o espanhol Jose Maria Ortiz apitou e a bola rolou.

Começo de jogo com posições bem definidas

Começou a partida e o Uruguai já fechou suas linhas, sem nenhum pudor. Só Cubilla ficou adiantando, para puxar os ataques. O Brasil manteve a mesma postura e disposição em campo das outras partidas. E partiu para o ataque com tentativas de lançamentos para a velocidade de Jairzinho e a técnica de Pelé.

Nos primeiros cinco minutos, o jogo foi muito duro. Mujica, por exemplo, acertou Jair duas vezes nesse período do jogo e levou um dos cartões amarelos mais rápidos daquela Copa. Rivellino também fez falta dura em Morales. Por sorte, o jogo não descambou para violência.

O Uruguai tinha um ataque rápido, com trocas de posição rápidas entre seus adiantados, Cubilla e Morales. Assim, aproveitando um Brasil que parecia estar mais tenso que o normal, o time teve duas chances. Clodoaldo errou um passe aos 7 minutos, que rendeu um chute de Maneiro para defesa de Félix. O volante brasileiro voltaria a errar um passe dois minutos depois, terminando num chute de Fontes para a defesa do goleiro brasileiro. O jogador do Santos parecia um elo fraco do time naquele dia. Guarde essa informação…

Os primeiros 15 minutos foram de total inoperância ofensiva do Brasil. Um drible aqui, uma arrancada ali, mas absolutamente todas as divididas foram vencidas pelos charruas. Além disso, a defesa seguia errando muito. Talvez por esse começo ruim, muitos afirmem que o “fantasma de 50” realmente afetou o Brasil.

Tostão tentando superar a forte defesa uruguaia.
Tostão tentando superar a forte defesa uruguaia. FOTO: CBF

Apesar do Uruguai ter tido as melhores chances até aquele momento, sua defesa parecia estar sendo acossada violentamente pelo Brasil. Fontes deu em Everaldo e levou amarelo, o segundo da celeste com apenas 17 minutos. Sem que o Brasil tivesse criado nada… Mas vale a precaução né…

O gol de Cubilla

O Brasil estava muito mal e tudo piorou aos 19. Brito errou um passe que foi parar nos pés do atento Morales, que lançou Cubilla, nas costas de Everaldo. Ele armou um petardo e Félix, atento, se preparou para defender o chute violentíssimo que viria. Entretanto, ao contrário da qualidade do atacante celeste, veio uma canelada. Um chute miserável e sem qualquer resquício de firmeza e direção. Mas, maliciosamente, ao entrar em contato com o solo, ganhou efeito e foi sorrateiramente se esgueirando até o canto do gol brasileiro.

Uruguaios celebram o gol.
Uruguaios celebram o gol. FOTO: reprodução

Félix, sempre convivendo com a fama de fragueiro que lhe foi imposta, mais uma vez seria acusado de falha. Eu o absolvo totalmente, com toda minha experiência de ex-goleiro (como se adiantasse alguma coisa)…

Aquele gol foi, coincidentemente, a última finalização dos uruguaios naquele primeiro tempo. Como se fossem programados, os jogadores se fecharam na defesa. Mujica continuou distribuindo pancadas em Jairzinho e Montero Castillo, tido como o mais violento dentre os defensores charruas, anulava Pelé mesmo sem usar seu maior predicado.

A sacada de Gerson e a redenção de Clodoaldo

A partir dos 30 minutos, o Brasil começou a jogar melhor, assim que Pelé começou a aparecer mais. Aos 31, o Rei cabeceou para fora a primeira chegada efetiva do Brasil. Na bola parada, quatro minutos depois, Rivellino cobrou falta com perigo, forçando Mazurkiewicz a fazer sua primeira boa defesa. Por falar no Riva, ele levou uma paulada de… Maneiro. Isso mesmo. Um dos melhores jogadores em campo, muito habilidoso, levou amarelo por lançar mão de rispidez.

Dá pra notar que não falamos ainda em Gerson, certo? Pois o volante Cortés não dava espaço ao “Canhota”. Ao invés de esperar o fim do primeiro tempo para encontrar uma solução, um gênio como Gerson preferiu resolver ali mesmo. Propôs uma troca de posição entre ele e Clodoaldo, adiantando o volante (que até então estava mal) e recuando, levando consigo a marcação.

O Brasil começou a criar mais. Pelé bateu uma falta para defesa de Mazurkiewicz, aos 42, e Tostão achou uma brecha no ferrolho para chutar para fora aos 44.

No banco, já se cogitava trocar Clodoaldo por Caju, quando no último lance do jogo, a sacada de Gerson deu resultado. De um dos piores em campo, o volante do Santos passou a herói do primeiro tempo. O “Corró” (como era conhecido) avançou pela esquerda, tocou para Tostão, que lhe devolveu com um passe genial já dentro da área. De primeira, sem deixar cair, Clodoaldo meteu o pé direito na bola e venceu Mazurkiewicz. Seu primeiro e único gol pela seleção – e um dos primeiros da carreira.

Festa brasileira e fim de primeiro tempo.

Instantes antes do único gol de Clodoaldo com a camisa do Brasil.
Instantes antes do único gol de Clodoaldo com a camisa do Brasil. FOTO: acervo

Zagallo acorda o time para o segundo tempo

O “Velho Lobo” acordou o time brasileiro no intervalo. A falta de criatividade era reflexo da tensão e não da qualidade dos times. Claramente o Uruguai era mais fraco e, fatalmente, não deveria tentar muitas ações ofensivas no segundo tempo. E a chamada de atenção rendeu uma melhora substancial.

Nos dez primeiro minutos, só deu Brasil. Logo aos 2 minutos, Jairzinho escapou de Mujica e Matosas e, da linha de fundo, mandou uma bomba para defesa de Mazurkiewicz. Aliás, Jair seguia apanhando – dessa vez de Ubiña, para preservar o amarelado Mujica.

Cubilla chutou sem perigo aos 11 minutos. Foi a primeira jogada de ataque celeste desde o gol e seria uma das poucas no segundo tempo, ao contrário das entradas violentas. Essas seguiam firmes (sem trocadilho)…

Uruguai violento

A estigma de que os uruguaios eram violentos – que eu acho absurdo – nunca fez tanto sentido como nessa sequência de pouco menos três minutos.

Ubiña e Mujica continuavam acertando Jairzinho – que já tinha perdido as contas de quantas pancadas já tinha levado. Félix saiu do gol para agarrar um cruzamento fácil e sofreu uma “cama-de-gato” de Morales. Na queda de cabeça, o goleiro brasileiro se machucou de novo – como de praxe naquela competição.

Aos 12 minutos, Pelé arrancou do campo de defesa, deixou Fontes, Cortés, Matosas e Ancheta para trás e ia em direção do gol. Milímetros antes do Rei invadir a área, Fontes pisou na perna direta do Rei. Quase lesionou o camisa 10. Indignação dos brasileiros, principalmente da vítima. Isso atrapalhou Pelé, que foi bater a falta com raiva, jogando a bola a anos luz do gol. Mas ele se redimiria instantes depois

Pelé (e o Brasil) tomam as rédeas da partida

Na cobrança do tiro de meta, Mazurkiewicz bateu muito mal e a bola saiu muito baixa e, por um capricho do destino, correu pela intermediária em direção a Pelé. Num raciocínio de fração de segundo, o camisa 10 brasileiro girou com toda sua majestade e desferiu um chute de primeira, num toma lá da cá que surpreendeu a todos. Exceto ao guarda metas uruguaio, que ágil, se redimiu da falha e defendeu. Mais um lance pra conta dos golaços que Pelé não fez naquela Copa, mas que jamais deixariam de ser contados na sua biografia.

O Rei seguia ligado. Jairzinho escapou de duas pancadas… quer dizer, marcadores, e rolou para Pelé chutar com violência para fora, raspando a trave. O Brasil começou a criar muito pelas pontas, com Rivellino e, principalmente, com Jairzinho. E o Uruguai começou a falhar…

Jairzinho infernizou a defesa uruguaia no segundo tempo.
Jairzinho infernizou a defesa uruguaia no segundo tempo. FOTO: CBF

Fontes, pouco depois de tentar um chute de longe contra Félix, errou um passe que condenou a equipe celeste. Jair roubou a bola e deu à Pelé que, de costas, tocou de primeira para Tostão. A genialidade do lance seguiu com um lançamento rasteiro sensacional para Jairzinho, que seguiu em disparada. Ele fintou Matosas, ganhou na corrida e chutou rasteiro, cruzado, tirando de Mazurkiewicz, que viu a bola correr mansa para o gol.

Ali todo mundo pensava que o jogo estava resolvido. A não ser que algo fora de padrão acontecesse. Mas num duelo desses sempre acontece. Até mesmo um lance de violência de um craque. Ou de dois…

Pelé estava com o pisão que recebera guardado na sua cabeça. Numa de suas  escapadas pela esquerda acertou uma cotovelada violentíssima em Fontes, antes de cair ao solo pela “dividida”. Em tempos de VAR, vermelho direto! Mas o árbitro espanhol marcou falta sobre Pelé e não fez ABSOLUTAMENTE NADA com o 10 brasileiro. Fúria do lado uruguaio.

Em meio ao quebra pau, Gerson passou a ter mais espaço em campo. Numa dessas, aos 40 minutos, ele mandou um tiro de três dedos que só não entrou por uma intervenção plástica do arqueiro uruguaio. Após essa pausa para o bom futebol, voltamos à briga de rua.

Depois de tanto apanhar, Jair revidou as inúmeras pancadas que levou e acertou as costas de Mujica. Hohberg, invadiu o gramado para reclamar com o árbitro. O curioso é que, enquanto os uruguaios batiam, ele estava de boa no banco… Para não ficar para trás, Zagallo fez o mesmo. E, para evitar o pior, Pelé tirou seu treinador da confusão.

A pausa esfriou o impeto brasileiro e quase mudou a história do jogo. Beiravam os 40 minutos, quando um cruzamento de Mujica (finalmente jogando bola) achou Cubilla livre. Everaldo esqueceu um dos melhores do adversário completamente desmarcado na pequena área. A cabeçada que tinha endereço certo parou numa defesa espetacularmente milagrosa de Félix. Era o fim do ímpeto uruguaio.

O fim de jogo magistral de Pelé

No fim do jogo, Pelé resolveu dar show. Ele escapou livre pela esquerda, após espirrada de Ubiñas, e conduziu a bola até próximo do bico da área, cadenciando a velocidade do lance, como se esperasse a chegada de Rivellino. Com uma categoria única, ele rolou com precisão milimétrica para Riva desferir sua patada atômica. A bola passou por Mazurkiewicz e morreu nas redes celestes.

Era a final garantida! O banco brasileiro invadiu o campo para comemorar com Riva – principalmente Ado, seu companheiro de Corinthians. O Brasil voltava à decisão da Copa. Festa completa! Mas faltava a assinatura do maior de todos.

No último lance do jogo, mais um não-gol de Pelé. Na verdade, mais uma jogada de genialidade pura. Com o Uruguai batido, Jairzinho roubou a bola de Ubiñas na ponta-esquerda e tocou para Tostão. O camisa nove carregou, ergueu a cabeça e deu um passe em profundidade para Pelé. Numa corrida em diagonal, em meio à defesa aberta, o craque brasileiro saiu na frente do grande arqueiro uruguaio e deixou a bola passar… Algo simples que pareceu genial. Mazurkiewicz, que partiu pra cima de Pelé, viu a bola passar direto por ele, enquanto o brasileiro escapou da mão do goleiro e o contornou, pegando a bola no canto direito da área e chutando cruzado. A jogada foi tão impressionante que a bola preferiu passar raspando a trave e integrar, assim, a lista de jogadas espetaculares de Pelé que não deram em gol.

Bastava. Fim de jogo: Brasil 3×1 Uruguai

Pelé aplica o histórico drible de corpo sobre Mazurkiewicz
Pelé aplica o histórico drible de corpo sobre Mazurkiewicz. FOTO: Getty Images

O caminho aberto para o tri

Batido o Uruguai, agora faltava apenas um jogo. Aliás, aquele jogo foi um dos únicos momentos, ao lado da partida contra a Inglaterra. Segundo Tostão, aquele jogo foi mais difícil que o duelo contra os ingleses, pois uma derrota tiraria as chances de título, ao contrário da partida pela primeira fase. Por isso a vitória foi tão emblemática e claro, midiaticamente, a grande vingança do Maracanazzo.

No geral, a imprensa brasileira narrou a vitória do futebol bem jogado contra a violência e o antijogo. Por outro lado, o técnico uruguaio continuou achando o Uruguai melhor e reclamando que a FIFA favorecia o Brasil. Apesar das falhas do árbitro, convenhamos que era uma reclamação absurda.

Manchete pós-jogo.
Manchete pós-jogo. FOTO: O Globo

Aquele jogo ficou para história. Não foi e nem será o maior Brasil x Uruguai de todos os tempos, mas está entre os três maiores, principalmente por ser um trecho importante da estrada que a seleção brasileira percorreu rumo ao tri. O final dessa estrada, fica para outro post.

Ficha Técnica

LOCAL: Jalisco, Guadalajara.
DATA: 17 de junho de 1970.
PÚBLICO: 51.261 presentes.
ÁRBITRO: José Maria Ortiz (Espanha).
GOL: Cubilla; Clodoaldo, Jairzinho e Rivellino
CARTÕES AMARELOS: Carlos Alberto Torres; Fontes, Maneiro e Mujica.
BRASIL – Félix; Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Rivellino; Pelé, Jairzinho e Tostão. Técnico: Zagallo.
URUGUAI – Mazurkiewicz; Ubiñas, Ancheta, Matosas e Mujica; Montero Castillo, Cortés, Maneiro (Espárrago); Cubilla, Fontes e Morales. Técnico: Juan Eduardo Hohberg.

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