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A ROMÊNIA E O “LADO B” DO TRI

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O jogo contra a Romênia na Copa de 70 é sem dúvida o patinho feio daquela campanha. Um clássico “lado b” de uma sequência histórica da seleção do tri. Para muitos, o pior jogo dos seis realizados em terras mexicanas, mas sem dúvida um momento do torneio que deve ser lembrado, até pelo que representou.

Ficou para história que o jogo não valia muito, mas não era bem assim. É muito verdade que só uma combinação improvável de resultados eliminaria a seleção mas, perder aquele poderia colocar o time em segundo e forçar um duelo contra a Alemanha Ocidental nas quartas. Mas ninguém considerou sequer uma derrota naquela partida, depois de vencer Tchecoslováquia e Inglaterra.

Antes daquele confronto, as duas seleções só tinham se enfrentado uma vez, em 1925, com vitória romena por 3×1. Aquela Romênia trazia nomes que entrariam em listas e mais listas de melhores da história do futebol do país, como Dumitrache. E naquele que foi o primeiro grupo de Copa do Mundo chamado de “Grupo da Morte”, os romenos fizeram uma bela campanha até aquele jogo, perdendo só por 1×0 para a Inglaterra e vencendo a Tchecoslováquia por 2×1. Uma vitória sobre o Brasil poderia colocar a Romênia nas quartas.

Capa do Jornal O Globo na véspera do jogo.
Capa do Jornal O Globo na véspera do jogo. FOTO: Acervo O Globo

Apesar do pensamento de goleada, o time não estava 100%. O Brasil veio muito modificado. Rivellino sentia dores depois do jogo contra a Inglaterra e foi poupado. Por isso, Paulo Cézar Caju, permaneceu no time ocupando seu lugar. Como Gérson ainda não havia se recuperado das dores que sentiu depois da estreia contra a Tchecoslováquia, alguém precisava ocupar sua posição como volante. Assim, Zagallo voltou com Piazza para sua posição original e promoveu Fontana à titularidade. Os dois cruzeirenses formaram com Tostão o trio celeste em campo.

Em teoria o Brasil se fecharia mais, entretanto não foi o que aconteceu.

Um começo avassalador do Brasil

Capitães antes do jogo.
Capitães antes do jogo. FOTO: Getty Images

A bola rolou e o Brasil começou de forma arrasadora. Aos três minutos, no primeiro avanço efetivo de Caju, o meia mandou uma bomba para a defesa de Adamache. Um minuto depois, Clodoaldo chegou como elemento surpresa, invadiu a área e disparou um chute cruzado por cima do gol.

Em mais um jogada de Caju, ele tabela com Tostão e vai ao fundo. Passa fácil pelo lateral Sătmăreanu e bate cruzado. A bola encontra o travessão e volta para dentro da área, sendo espanada pela zaga.

Depois e alguns minutos de jogo menos agudo, o Brasil marcou dois gols em três minutos. Aos 17, Pelé sofre fata na entrada da área. Na cobrança, Tostão meteu por cima da trave. Chance perdida que se converteu numa nova oportunidade. O juiz austríaco Ferdinand Marschall mandou voltar a cobrança. Esperando por nova cobrança de Tostão, o goleiro romeno foi surpreendido por uma bomba de Pelé que morreu nas redes da sua meta. Sua falha parece ter desequilibrado o arqueiro.

Aos 20, Jairzinho ligou o turbo e deixou o marcador pra trás, deu a bola para Caju que foi ao fundo limpar a marcação adversária e chutar cruzado. A bola no meio da confusão poderia ter vários destinos – correr rente a grama e sair, morrer nas mãos do goleiro, pegar num zagueiro e sair – mas encontrou o Jair, que seguiu na sua disparada desembestada para dentro da área. O desvio no primeiro pau daquele que seria o “Furacão da Copa” matou Adamache e guardou o segundo tento canarinho.

Antes do primeiro quarto de partida o Brasil já tinha matado o jogo. “Vai ser goleada”, muitos devem ter pensado.

O Brasil puxa o freio de mão e a Romênia muda seu jogo

Condenada, a Romênia decidiu cair de forma honrada. E foi atacar o Brasil. Aos 22, Dumitrach aproveita uma furada bisonha de Brito – mas menos  tosca que a falha contra a Inglaterra – e encobriu Félix. Por sorte dos brasileiros a bola foi para fora.

Mesmo subindo muito, a seleção romena produzia muito pouco. Seu forte era o jogo mais físico, o que as canelas dos jogadores brasileiros podiam atestar facilmente. O time batia muito forte.

Aos 27 minutos, surpreendentemente, o técnico Ângelo Nicolesco resolveu trocar os goleiros. Adamache saiu e deu lugar a Rică Răducanu. Essa foi a primeira substituição de goleiros da história das Copas do Mundo. Oficialmente, se deu por uma lesão, mas tem quem defenda que Adamache já era questionado por uma falha no gol que deu a vitória aos ingleses e que, depois de tomar dois gols em três minutos, teria esgotado a paciência da comissão técnica.

A primeira finalização romena no gol, foi aos 29 minutos, num chute rasteiro que parou em Félix. Mas àquela altura, estava claro que a seleção brasileira não estava mais com a cabeça no jogo. Todo mundo pensava em se poupar para as quartas.

Como consequência desse relaxamento excessivo, o Brasil sofreu seu primeiro gol. A defesa brasileira se distraiu e, aos 34, Dumitru lançou Florea Dumitrache, craque da equipe. Ele dominou dentro da área, puxou para a canhota tirando Brito e bateu na saída de Félix. Quase que miraculosamente a Romênia voltou para o jogo. Na saída de bola, o Brasil ainda estava digerindo o gol, quando os romenos roubaram a bola e acharam Dumitrache completamente livre. Dessa vez ele chutou por cima. Em menos de um minuto a avenida que a defesa brasileiro abriu no Jalisco quase jogou por terra a vantagem.

Antes que o primeiro tempo acabasse, Pelé resolveu que os romenos precisavam tomar um susto. O Rei arrancou com a bola, passou de passagem por dois marcadores e serviu Tostão, que desferiu um chute forte e cruzada, que passou raspando a trave.

O primeiro tempo teve fim e o Brasil já não tinha a mesma tranquilidade do início da partida. Mas levou a vitória para o vestiário.

Um segundo tempo totalmente aberto

O segundo tempo começou com a Romênia pegando pesado na marcação. O Brasil mal conseguia criar de tanta pancada. Everaldo, cuja especialidade era marcar, foi um dos que mais apanhou. Tanto que antes dos dez minutos deu lugar a Marco Antônio (que até era o titular antes da estreia).

Era tanta falta que o primeiro chute à gol do jogo viria de um tiro livre. Pelé cobrou uma falta com maestria, no ângulo do gol romeno, mas Răducanu fez valer sua presença em campo com uma plástica defesa.

Aos 16, Pelé ganhou na dividida e mandou pra rede. O árbitro austríaco não pensou duas vezes e anulou o gol, pelo camisa 10 ter usado o braço pra ganhar a dividida.

O Brasil ainda cadenciava o jogo, mas via que não era difícil chegar até a meta adversária. Assim, aos 21, o ataque verde e amarelo teve dois escanteios seguidos. Na sequência da segunda cobrança, Jairzinho meteu pra área uma bola que parecia perdida. Tostão fez uma acrobacia digna se Cirque du Soleil (que nem existia naquela época) e de calcanhar devolveu a bola para área, achando Pelé. O carrinho do Rei morreu na meta de Răducanu e decretou o 3×1 no placar.

Isso poderia ter sido o fim do jogo, mas acabou dando uma vida nova à partida, que se tornou um verdadeiro tiroteio de filme de faroeste (você escolhe: com ou sem Clint Eastwood).

Toma lá, dá cá!

No minuto seguinte ao gol, a zaga falhou – Fontana ficou pedindo falta – e chutou rente ao ângulo de Félix. Aos 23, Caju tabelou com Tostão e saiu na cara do gol, mas foi parado num impedimento.

Outro que tinha apanhado demais dos romenos, Clodoaldo saiu para a entrada de Edu. Sem um volante de ofício para compor com Piazza, Caju (quase um atacante) ocupou a posição. O time ficou totalmente exposto.

Aos 29, Tătaru chegou chegou pela ponta e cruzou mal. Entretanto a bola foi para o gol e obrigou Félix a se esticar tido para defender. Como num replay, um minuto depois aconteceu a mesma jogada, porém o atacante romeno agora desferiu um tiro forte e convicto, que passou à esquerda da meta brasileira com muito perigo.

A defesa romena continua batendo muito. Aos 32, Mocanu pisou no braço de Jairzinho depois do brasileiro ter sido jogado ao solo. A agressão descarada não deu em nada, revoltando os brasileiros. Entretanto, ao invés de revidar na mesma moeda, tentaram dar o troco na bola. Aos 33, Carlos Alberto subiu ao ataque e mandou uma bomba para grande defesa de Răducanu.

O duelo entre Mocanu e Jairzinho seguiu, com o brasileiro ganhando pancadas e devolvendo com jogadas. Aos 37 além de uma entortada o batedor… quer dizer, marcador romeno, levou uma caneta de presente.

No ataque, a preocupação romena era fazer gols, tanto que conseguiu mais um. Aos 38, numa jogada pelo lado de Marco Antônio (que comprovou não ser um primor defensivo), o lateral direito Sătmăreanu foi à linha de fundo e cruzou para a área. Félix saiu mau do gol e Emerich Dembrovschi ganhou de cabeça e desviou para o gol. O jogo estava mais duro do que parecia que seria.

E acontecia de novo a mesma situação que o Brasil viveu contra a Inglaterra. Um fim de jogo tenso, sem conseguir manter a bola e tendo que se defender aos trancos e barrancos.

Parecia piada, mas Tătaru chegou pelo lado, pela terceira vez e dessa novamente cruzou mal… ou quem sabe achou que deu mais certo errar um cruzamento do que chutar contra Félix? Enfim… O que sabemos é que o cruzamento errado ia morrer nas redes brasileiras se o goleiro brasileiro não intervisse com mais uma grande defesa.

Jairzinho lutando contra a marcação romena.
Jairzinho lutando contra a marcação romena. FOTO: acervo

Já que a defesa estava em apuros, o ataque resolveu agir. Aos 43, Jairzinho disparou pra cima de Mocanu, deixou o rapaz na saudade e lançou Pelé que achou Tostão completamente livre para finalizar com categoria. Răducanu operou um milagre e justificou mais uma vez sua entrada.

Os romenos ainda tentaram mas não criaram mais chances. O jogo acabou. Foram 25 minutos de muito ataque e de um duelo franco. Algo impensável antes do jogo. Aquele fim de partida emocionante abriu uma série de discussões sobre o time de Zagallo.

As lições de um jogo pouco badalado

O time jogou solto como não havia jogado ainda, principalmente no fim do jogo. O fato do adversário ser mais fraco e de não haver mais responsabilidade ajudou. Mas esses fatores também contribuíram pra expor uma série de deficiências do sistema defensivo brasileiro. A equipe ainda não estava totalmente coesa, o que era preocupante.

Esse jogo, apesar de ser pouco lembrado, foi o último teste do Brasil antes da formação clássica. Time completo depois do começo contra os tchecos, só veríamos mesmo em três partidas. Mas essa é uma outra história.

O pós jogo do jornal O Globo ressalta o jogo difícil.
O pós jogo do jornal O Globo ressalta o jogo difícil. FOTO: Acervo O Globo

Ficha Técnica

LOCAL: Jalisco, Guadalajara.
DATA: 10 de junho de 1970.
PÚBLICO: 50.804 presentes.
ÁRBITRO: Ferdinand Marschall (Áustria)
GOLS: Pelé (2), Jairzinho; Dumitrache e Dembrovschi .
CARTÕES AMARELOS: Mocanu e Dumitru
BRASIL – Félix; Carlos Alberto Torres, Brito, Fontana e Everaldo (Marco Antônio); Piazza, Clodoaldo (Edu), e Paulo Cézar Caju; Pelé, Tostão e Jairzinho. Técnico: Zagallo.
ROMÊNIA – Adamache (Răducanu); Sătmăreanu, Mocanu, Dinu e Lupesco; Dumitru, Nunweiller e Neagu; Dembrovschi, Dumitrache (Tătaru) e Lucescu. Técnico: Angelo Niculescu.

 

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