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SOBRE TORCER (E GANHAR) EM NOVO HAMBURGO

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O Novo Hamburgo escreveu definitivamente seu nome na história do Campeonato Gaúcho. Na verdade, ajudou a mudar a história do Gaúchão e de quebra, do município do Vale dos Sinos, interior gaúcho. Imagina como foi para a torcida do clube?

O clube teve grande relevância no cenário gaúcho principalmente nas décadas de 40 e 50, quando foi por cinco vezes campeão do interior. No século XXI o Novo Hamburgo optou por, em algumas temporadas, contratar jogadores consagrados e com apelo junto à mídia, o que nos fez ter a alcunha de “Galáticos do Vale” (em referência à região do Vale dos Sinos). Porém nenhuma delas conseguiu a façanha que o grupo atual alcançou nesse Gauchão. Pela primeira vez na história um time do interior emplacou seis vitórias seguidas (nas seis primeiras rodadas, inclusive com uma vitória sobre o Inter em pleno Beira Rio). Dos seis embates com a dupla Grenal, não perdeu nenhum jogo e marcou gol em todos. E falando em gols, o time só passou em branco em um único jogo dos 17 disputados. E tudo isso com uma folha salarial de R$ 150 mil, que não pagaria o salário da maioria dos jogadores da dupla Grenal.

Dificilmente um time domina tanto o seu estadual como o Novo Hamburgo fez. Melhor equipe da fase classificação e muito forte nas horas de decisão, inclusive nas penalidades. Foi o apogeu dos 106 anos de história do Noia e a coroação de um ótimo trabalho feito por um clube pequeno, do interior. Uma noite que jamais será esquecida pela torcida anilada.

Por falar nisso, fomos até a torcida anilada, no auge de sua euforia, para tentar entender o fenômeno Noia, que espantou o Brasil na temporada de estaduais. De onde veio tão arrebatadora campanha? Para tentar entender esse fenômeno do ponto de vista dos torcedores, nossos colaboradores foram os anilados Dênis Giesch Utzig e William Klein Oliveira.

Dava para imaginar uma coisa dessas?

Para quem vê de fora, a questão clichê da qual não se consegue fugir é: alguém achava que o Noia ia tão longe? E foi isso a primeira coisa que perguntamos. “Sonhar todos sonham, mas apostar no início da temporada que o time seria Campeão Gaúcho acredito que ninguém faria¨, afirmou William. “Ao longo do campeonato o time foi pegando corpo e, após uma sequência inédita para times do interior, de seis vitórias consecutivas, muitos (inclusive eu) começaram a levantar a hipótese: será que podemos? Seria possível? No fim mostramos que às vezes o futebol tem lógica; o time com mais pontos, mais vitórias e melhor ataque venceu a competição”, completou.

Dênis ainda foi mais taxativo, ao dizer que definitivamente não se esperava essa campanha no início do Gauchão. Ele ainda ressalta que o clube estava desordenado no final de 2016. “Para se ter uma ideia, em novembro do ano passado estávamos sem presidente no clube, sem presidente no conselho e sem vice de futebol. Somente em dezembro é que as coisas começaram a se ajeitar, com o retorno de dirigentes que já tinham comandado o Nóia na década passada”, relatou. Espera um pouco. Quer dizer que o time que dominou o Rio Grande do Sul, com baixo orçamento e muita organização, não tinha nem diretoria no fim do ano anterior? Isso mesmo.

Segundo Denis, devido ao orçamento curto, a estratégia do Noia foi manter parte do elenco do 2º semestre de 2016 e escolher a dedo contratações pontuais, que, curiosamente, foram feitas num intervalo de uma semana (!). Aliás, ele lembra que foi também pelo fim do ano que a comissão técnica foi contratada. Sobre a montagem do elenco, William enfatiza que sua estrutura foi muito bem pensada e trabalha, posição por posição, mas sem nenhuma certeza de sucesso. Naturalmente, isso só viria com tempo e bola rolando. Mas daí a dar resultado assim tão rápido e feito da forma como feito… Não dá nem pra acreditar, mas saiu muito melhor que a encomenda.

O que o Noia tem de especial?

Mas num estado com Grêmio, Inter, Juventude, Caxias, Brasil de Pelotas e outras boas equipes, munidas de tanta ou mais tradição, que diferencial esse Novo Hamburgo teve para ir tão longe? Para William, o entrosamento da equipe mereceu destaque, mas o grande diferencial foi a precisão nos momentos decisivos. “Aos olhos da torcida e do público parecia uma orquestra muito bem orientada e regida pelo técnico (…) Fazia o gol quando mais precisava; salvava uma bola no momento em que o adversário iria marcar. Parecia saber o momento exato de fazer as coisas, como se soubesse o futuro. Para o Novo Hamburgo não existia ‘e se…’, ele fazia acontecer”, opinou um torcedor empolgado.

Para Dênis, organização tática e humildade foram preponderantes. “Os jogadores sabiam onde tinham que estar dentro de campo e quais as funções tinham que exercer. A bola era trabalhada, sempre com algum jogador se movimentando para dar opção de passe. Dificilmente o time dava balão. Tinha um sistema defensivo sólido (melhor da competição) e um contra ataque-mortal”, descreveu quase como numa análise tática. Ele ainda destacou o papel do técnico Bebeto Campos: “eu, particularmente, era favorável à manutenção do técnico anterior (Ben Hur Pereira) por já ter um conhecimento do grupo que estava sendo montado, além de ter feito um bom trabalho no segundo semestre (2016). Porém, no decorrer do campeonato, ficou evidente a capacidade da comissão técnica escolhida, especialmente do treinador Beto Campos”.

Quanto ao grupo de jogadores, todos eram “operários”, como o próprio Dênis denominou. Segundo o torcedor, a relação dos jogadores e de suas famílias com o clube ficaram muito fortalecidas. “Não havia estrelismo por parte deles, e com o passar dos dias eles se transformaram numa verdadeira família, a ponto das esposas acompanharem os jogos nos estádios e, após os treinos, eles se reunirem na casa de algum jogador para confraternizar e compartilhar alguns momentos juntos”, relatou. Com jogadores unidos, dentro e fora de campo, e cientes de seu papel no time, começa a fazer sentido o sucesso da engrenagem anilada, dona da melhor campanha, melhor ataque e melhor defesa do Gauchão.

O torcer pelo Novo Hamburgo

Bom, agora o Noia vive uma repentina fama e seus torcedores estão em meio à euforia de comemorar um título histórico para o time. Ai nos bateu a curiosidade de saber como era torcer para o time antes dessa conquista. Segundo o William, que sempre foi torcedor de estádio, torcer para o Novo Hamburgo era escutar jogo no radinho, quase sem cobertura e esperando informações que não chegavam. “A televisão não mostra os teus jogos, muito menos os teus jogadores e o dia a dia do clube. Tu que precisa buscar as notícias”, reclamou. Mas com o título, mudou tudo e vieram semanas bem anormais. “Estávamos diariamente nos noticiários e nas rodas de conversas. O time que desbancou Grêmio e Inter agora é assunto popular. Parece que finalmente nos descobriram”, relatou o torcedor do, agora, fenômeno do futebol gaúcho.” Ele ainda relata o orgulho de presenciar o feito e o fato de estar sempre com o time, onde quer que ele vá: ” (…) Me sinto muito honrado de poder participar e presenciar essa conquista histórica. A torcida anilada espera alcançar voos mais altos a cada ano. Mas uma coisa é certa: não importa o campeonato, não importa a divisão; sempre contigo estaremos!”

Time do Novo Hamburgo com a taça do Gauchão.
Time do Novo Hamburgo com a taça do Gauchão. FOTO: Diogo Salaberry/Agencia RBS

Dênis abordou o lado romântico da paixão e do torcedor pelo seu clube. Pensamos em editar sua resposta, mas dado o sentimento de arquibancada, escrito com o sangue anilado que corre nas veias de quem ama o Novo Hamburgo, não nos sentimos no direito de fazê-lo. Por isso colocamos abaixo, na íntegra seu depoimento de como era e é torcer pelo Noia.

“Entre a torcida, temos a mania de dizer que torcer pro Nóia é uma cachaça, um vício. Sabemos que em excesso pode ser prejudicial, que impacta toda a vida dos que estão na nossa volta, que pode nos levar do abismo a um estágio de êxtase em segundos (e vice-versa), e no momento de arrependimento do dia seguinte, te fazer prometer que nunca mais repetirá a experiência – mas no próximo jogo tu és o primeiro a chegar no Estádio”. Nós, torcedores, nos conhecemos pelo nome, pelo apelido, e juntos já vivemos diversas ‘indiadas’ pelos confins do Rio Grande – e fora do Rio Grande também. No ambiente de trabalho, na faculdade, entre os vizinhos, frequentemente o torcedor do Nóia era motivo de chacota. Engolíamos a piadinha a seco ou, dependendo do estado de humor, já partíamos para um bate-boca acalorado.

Presenciar essa façanha na companhia desses 300 fanáticos e fiéis torcedores, que acompanharam o time em jogos de segundona gaúcha e de Copa do Brasil, que estavam juntos na boa e na ruim… essa sensação é indescritível. Receber os jogadores no estádio, dar um abraço aos prantos em agradecimento, invadir o gramado e se sentar ao pé da trave, ouvindo os gritos eufóricos e assistindo o espetáculo dos fogos de artifício da conquista ao fundo. O Novo Hamburgo, com essa conquista, certamente renovou por mais 106 anos meu vício pelo time.”

Bom, esses dois torcedores são apenas uma pequena amostra da torcida do Noia e uma amostra menor ainda da cidade de Novo Hamburgo. Mas parece estar claro que nada mais será como antes por lá. Pode ser que o título não se repita e que este seja mesmo o voo mais alto do time. Mas com certeza, na memória e nos corações da torcida dessa cidade do interior gaúcho, a história do Gauchão 2017 estará sempre viva. Como num sonho que nunca acaba.

 

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