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NOTTINGHAM FOREST: UMA ZEBRA REPETIDA DUAS VEZES

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Qualquer um que acompanhe o futebol inglês dos últimos 20 ou 25 anos não consegue entender muito bem como isso aconteceu. Muitos nem conhecem bem o simpático Nottingham Forest, que conseguiu a façanha de ser bicampeão da Champions League e depois desaparecer da mídia. O que aconteceu naquela virada de década de 70 para a de 80 foi, sem dúvida, uma das maiores zebras do futebol europeu.

O Nottingham Forest (sediado na famosa floresta de Robin Hood) havia conquistado o seu primeiro e único título inglês no ano anterior, chegando à sua primeira Champions. Nem por isso era um novato de tudo. O clube já tinha 114 anos naquela temporada, possuindo uma razoável tradição na Inglaterra, mas conquistando apenas alguns títulos de copas e realizando campanhas medianas no campeonato inglês.

Nottingham Forest campeão europeu.
Nottingham Forest campeão europeu. FOTO: Getty Images

A mudança na história do clube começou quando o técnico Brian Clough assumiu o time em 1975 e montou uma equipe extremamente competitiva, com marcação forte e muita determinação para superar suas limitações técnicas. Os destaques eram o goleiro Peter Shilton e o meia Trevor Francis, dois grande nomes do futebol britânico dos anos 70 e 80. Essa equipe do Forest ficou 42 jogos invictos no Campeonato Inglês entre 1977 e 78 (recorde só batido pelo Arsenal em 2004) e conquistou um título nacional, que deu direito à disputar a então Taça dos Campeões Europeus. Naquela temporada, conquistou a tríplice coroa nacional.

A competição era bem diferente naquela época. Disputada apenas em mata-mata, reunião tão somente os campeões nacionais e o seu atual campeão. Muito, mas muito mais dura de se disputar.

A temporada 78/79

A final da Champions League de 1979 surpreendeu o mundo com o duelo inusitado entre Nottingham Forest, da Inglaterra, e Malmö, da Suécia; realizado no estádio Olímpico de Munique.

De um lado, o estreante Forest surpreendeu a Europa com sua ascensão meteórica. Começou com a eliminação do atual bicampeão Liverpool (2×0 e 0x0), passando ainda por AEK Atenas da Grécia (2×1 e 5×1), Grasshopper da Suíça (4×1 e 1×1) e o Colônia da Alemanha Ocidental (3×3 e 1×0).

Do outro o Malmö chegou a final eliminando o Monaco da França (0x0 e 1×0), Dínamo de Kiev da URSS (0x0 e 2×0), Wisla Krakówia da Polônia (1×2 e 4×1) e o Áustria Viena (0x0 e 1×0).

O adversário na decisão era o Malmö F.F. Um dos três grandes do futebol sueco, possuindo ate então 12 títulos nacionais, mas sem nenhuma expressão no cenário europeu. O que continua sendo, pois aquela foi sua única decisão a nível europeu até hoje.

Dois debutantes numa final. Uma zebra completa e não haveria como ser diferente, pois entre os oito melhores clubes da competição,  a maior repercussão internacional era do Glasgow Rangers da Escócia. Isso não quer dizer que fossem equipes fracas. O Dínamo de Dresden (Alemanha Oriental) e o Wisla Cracóvia (Polônia) tinha equipes que refletiam o grande momento do futebol do leste europeu e o Grasshopper (Suiça) era comandado por aquele que seria o goleador máximo do torneio – o suíço Claudio Sulser. Essas equipes, além das citadas anteriormente deixaram para trás Real Madrid, Porto, Juventus e Dínamo de Kiev. Foi zebra? Foi. Mas o contexto é importante.

Em 30 de maio de 79, no Olímpico de Munique o mundo viu uma zebra anunciada. Dos titulares, o único ausente era Archie Gemmill, do Forest, lesionado, que foi substituído por Ian Bowyer. O Forest logo de cara perdeu chances com Frank Clark e Bowyer. Robertson flutuava em campo e por outro lado o zagueiro do Malmö, Anders Ljundberg se destacava. Numa das poucas chances de perigo do Malmö, Olof Kinnvall ficou cara a cara com Peter Shilton que salvou o Forest.

O gol foi marcado nos acréscimos do primeiro tempo. Robertson escapou da marcação tripla que vinha sendo feita sobre ele pelo Malmö, chegou a linha de fundo e cruzou para Francis mergulhar de cabeça e fazer o gol do título. Vale lembrar que Francis estreava naquela competição justamente na final. O Forest não apresentou seu melhor futebol, mas fez história, ao se tornar o primeiro clube campeão europeu logo em sua primeira tentativa (nem venham falar do campeão da primeira edição, ok?). Foi o terceiro time inglês campeão.

A maioria da torcida em Munique era do Nottinghan Forest, que comemorou com um barulho ensurdecedor. O Forest foi ofensivo o tempo todo e o Malmö ficou na defesa. Mesmo com uma apresentação aquém de suas capacidades o Nottinghan Forest conquistou a Champions com grande festa em Munique, deixando a Europa atônita com a cena surpreendente do capitão McGovern erguendo a taça.

McGovern ergue a taça de campeão europeu.
McGovern ergue a taça de campeão europeu. FOTO: Getty Images

Naquele ano o sucesso do clube só não foi maior porque ele desistiu de enfrentar o Olímpia do Paraguai na final do Mundial Interclubes. Foi substituído pelo Malmö, que foi derrotado.

Nottingham Forest (ING) 1 x 0 Malmö (SUE)
Nottingham Forest: Shilton; Anderson, Lloyd, Burns, Clark; Francis, McGovern, Bowyer, Robertson; Woodcock, Birtles. Técnico: Brian Clough.
Malmö: Moller; R.Andersson, Jonsson, M.Andersson, Erlandsson; Tapper (Malmberg), Ljungberg, Prytz, Kinnvall; Hansson (T.Andersson), Cervin. Técnico: Bob Houghton.
Gol: Francis, aos 46 do 1ºtempo.
Estádio: Olímpico, em Munique (RFA).
Data: 30/05/1979.
Árbitro: Erich Linemayr(AUT)
Público: 57.000 pagantes.

O replay de uma zebra

Como zebra pouca é bobagem e time voltou a ser campeão na temporada seguinte. Isso mesmo. O antes inexpressivo Forest foi bicampeão europeu na temporada 79/80. Dessa vez, sendo levado a sério, o time encarou como objetivo real o bi.

A campanha contou com vitórias sobre Östers da Suécia (2×0 e 1×1), Arges Pitesti da Romênia (2×0 e 2×1), Dynamo de Berlim da Alemanha Oriental (0x1 e 3×1) e o Ajax da Holanda (2×0 e 0x1). O título emblemático dos “Reds” veio com uma vitória sobre do Hamburgo da Alemanha Ocidental por 1 x 0, em Madri, com o gol de Robertson.

Forest conquista o título europeu no Santiago Bernabeu.
Forest conquista o título europeu no Santiago Bernabeu. FOTO: Getty Images

O feito dificilmente será igualado. É a única equipe até hoje a vencer mais títulos europeus do que nacionais.

Nottingham Forest (ING) 1 x 0 Hamburgo (RFA)
Nottingham Forest: Shilton; Anderson, Gray (Gunn), Burns, Lloyd; McGovern, Mills (O’Hare), O’Neill, Bowyer, Robertson; Birtles. Técnico: Brian Clough.
Hamburgo: Kargus; Nogly, Jakobs, Buljan, Kaltz; Hieronymus (Hrubesch), Memering, Magath, Kevin Keegan; Reimann, Milewsky. Técnico: Branko Zebec.
Gol: Robertson, aos 20 do 1ºtempo.
Estádio: Santiago Bernanbeu, em Madrid (ESP).
Data: 28/05/1980
Árbitro: Antônio Garrido (ESP)
Público: 50.000 pagantes.

Brian Clough e o pós-título

O técnico inglês Brian Clough, tido como um milagreiro, ficou no clube entre 1975 e 1993. Totalizou 907 jogos, sendo demitido apenas após o rebaixamento da equipe na Liga Inglesa. Sua história com o Forest rompeu gerações. Até hoje é apontado como um dos trabalhos mais impressionantes do futebol mundial. Pegou o time em crise, na segunda divisão e o levou em poucos anos ao topo do continente. Curiosamente, antes de treinar o Nottingham Forest, havia treinado seu grande rival, o Derby County.

Nunca mais o time inglês foi tão longe. Após aqueles anos mágicos, o clube voltou ao ostracismo e hoje se encontra na 2ª divisão inglesa, sendo – juntamente ao Hamburgo – o único campeão europeu nesta situação atualmente. Oscilou entre bons e mal momentos,

Brian Clough com a orelhuda.
Brian Clough com a orelhuda. FOTO: Acervo

A versão original deste texto foi inicialmente publicada no Quando A Zebra Entra em Campo.

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